Fazemos escolhas o tempo todo, desde as mais simples até aquelas de alto risco, que envolvem imensa carga afetiva.
O ser humano é um ser que escolhe através dos escaninhos da subjetividade moldada pela cultura.
O currículo articula-se com o conteúdo programático para legitimar as práticas do aparelho ideológico do Estado e, assim, ocorre a naturalização de uma seleção cultural.
Essa opção pela naturalização torna míope e obtusa o entendimento da pobreza, da guerra, do analfabetismo, da fome e violência contra as minorias. Pensando com Brecht em "Nada é impossível de mudar":
“Desconfiai do mais trivial, na aparência singela. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar".
Quatro pensadores abordaram a questão curricular, Forquin, Silva, Apple e Freire:
“A cada geração, a cada ‘renovação’ da pedagogia, e dos programas, são partes inteiras da herança que desaparecem da “memória escolar”, ao mesmo tempo que novos elementos surgem, novos conteúdos e novas formas de saber, novas configurações epistêmico-didáticas, novos modelos de certeza, novas definições de excelência acadêmica ou cultural, novos valores.” (FORQUIN)
"O currículo é assim, 'documento de identidade' reflexo do momento histórico em questão e diretamente vinculado às relações de poder, a organização e estruturação da sociedade, e a visão de mundo do grupo social dominante. (SILVA)
“A escola torna-se uma escola de ‘classes sociais’, pois o currículo transmitido em escolas onde os indivíduos pertencem a classe dominante são completamente distintos dos conhecimentos das escolas das outras classes. O conteúdo que vai desenvolver o indivíduo pensante é ensinado somente aos elementos da classe dominante para que assim eles possam ter condições de continuar nessa posição”. (APPLE).
Durante o período da colonização tivemos uma educação eurocêntrica que ignorou as culturas indígena e africana.
Esse modelo eurocêntrico perpetuou o paradigma de que o único saber possível se dá nos moldes acadêmicos regidos pelo cartesianismo, nunca fora dos muros da escola.
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (Freire)
Aprende-se desde a mais tenra idade a odiar o negro, a considerar a mulher com menor valia, a ver o índio como um fóssil vivo e que só a religião do homem branco é certa e redentora. Por ser aprendido e não “nascido assim” com ódios gratuitos, que tais chagas sociais se reportam e se articulam com a prática educacional.
O desafio atual, que já é por demais tardio, é mitigar as mazelas sociais e promover a alteridade através do exercício de uma gestão democrática no cenário educacional, com o nítido objetivo de estabelecer um currículo que permita a mediação com o mundo, sem perpetuar o etnocentrismo, não legitimar as artimanhas do aparelho ideológico do Estado que culminam na prática da violência simbólica.
Trata-se de re-humanizar a humanidade pela prática pedagógica holística, interreligiosa e que sabe dialogar com universo cyber cultural veloz, porém, com foco e planejamento, exercida por educadores bem preparados e atualizados, que valorizam a Pedagogia dos Projetos e caminham no sentido oposto de uma educação bancária.
