quinta-feira, 20 de novembro de 2008

“O HOMEM NÃO VIVE SEM LEI E A LEI NÃO EXISTE SEM A ATUAÇÃO DO HOMEM”

NELSON PASCARELLI FILHO

I- Sobre um Momento Decisivo na Evolução Humana


Num certo momento da evolução humana a postura torna-se vertical, as mãos ficam livres para se construir ferramentas e o campo visual amplia-se em direção ao horizonte infinito.

Nasce a história da afetividade concatenada com a sexualidade: A cópula é realizada frente a frente, vêem-se as expressões faciais e a subjetividade se faz presente.
Considere: "A natureza tem para tudo o seu objetivo." (Aristóteles)
Contraponto: “O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo"
(Sartre)


II – Sobre a Linguagem

No hominídeo a linguagem articulada ainda é embrionária, mas a subjetividade, que se tornará cada vez complexa, será a condição sine qua non para formar um campo semântico capaz de ordenar as relações de poder e de sobrevivência mediadas pelas palavras, poder que antes era regido pela habilidade de fazer e manter o fogo aceso.
Considere:
“O verdadeiro e o falso são atributos da linguagem, não das coisas. E onde não há linguagem, não há verdade nem falsidade”
“Mas a mais nobre e útil de todas as invenções foi a da linguagem, que consiste em nomes ou apelações e em suas conexões, pelas quais os homens registram seus pensamentos, os recordam depois de passarem, e também os usam entre si para a utilidade e conversa recíprocas, sem o que não haveria entre os homens nem Estado, nem sociedade, nem contrato, nem paz, tal como não existem entre os leões, os ursos e os lobos.” (Hobbes )

III- Sobre o Campo Visual
A ampliação do campo visual é decisiva para se estabelecer as relações de domínio: Posse territorial e Caça-Caçador.
A subjetividade e a intensa neuro-estimulação provocada pela ampliação do campo visual desperta a ambição, o desejo de posse refinada e, ao longo da evolução a necessidade da arte, da abstração e compreensão da finitude.
Considere:
"O olho vê somente o que a mente está preparada para compreender." (Bergson )
“Do que vale olhar sem ver” (Gothe)


IV – Sobre a Propriedade
Um dia, certo hominídeo afirmou apontando para solo: Isto é meu! Ninguém o questionou e ele fez tal afirmação várias e várias vezes - aqui e ali - e muito além de onde o fez pela primeira vez!
A necessidade das leis está vinculada por demais à origem da propriedade privada e prevenção a um estado de guerra contínua.
Considere: "A propriedade é um roubo." (Proudhon)


V- Sobre a Subjetividade

Diante de uma linda flor o animal deverá decidir: Comestível ou não comestível? O código genético que o confina é soberano e não permite ao animal admirar a natureza, a prioridade é sobreviver. O animal e o meio ambiente que o envolve são um todo: Ele não reconhece a própria imagem refletida no espelho, não existe um Eu, uma individualidade.
Posse e conquista da fêmea são determinadas somente por estímulos neuroquímicos, feromônios e genes dominantes.
O Homem interpreta a natureza, faz arte, ferramentas, transforma a natureza; ele decide e sente admiração diante do que ele considera belo.
Reconhece um eu e um não-eu. Está também sujeito aos estímulos neuroquímicos, feromônios e genes dominantes, mas a cultura é decisiva para estabelecer as relações sociais e seus controladores.
Considere: “Quando pensamos, fazemos com o fim de julgar ou chegar a uma conclusão; quando sentimos, é para atribuir um valor pessoal a qualquer coisa que fazemos.” (Carl Jung)
Contraponto: “A consciência é um novo produto industrial”(Baudrillard)



VI - Sobre a Guerra


Se o mais intrínseco Eu-consciente não reconhece que a subjetividade e percepção da realidade que determina seu viver são formadas por todos os não-eus que se relacionou ao longo de uma vida, surge um estado de etnocentrismo que é a maligna raiz de todas as mazelas que afligem a Humanidade: Julgar uma cultura por outra. E esta mazela é ensinada aos alunos pelos organizadores da Cultura - a “intelligentsia” - no seu pior sentido, que cria um estado de guerra contínua, intolerâncias religiosas e étnicas, e expansão territorial.

Considere: "A guerra é uma invenção da mente humana; e a mente humana também pode inventar a paz." (Winston Churchill)


VII- Alteridade

A solução para se evitar o estado de guerra contínua é promover a alteridade - ver o outro através do outro - e estabelecer um Estado de Direito que permita a re-humanização, a paz social através de um sistema de leis que tenha o paradigma do povo para o povo visto que o homem não vive sem Lei e a Lei não existe sem a atuação do homem.
Considere:
"Qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais tem que servir contra as guerras." (Sigmund Freud)
“O sujeito do prazer conhece-se no outro, traz a alteridade do outro para dentro de si, ao mesmo tempo em que se projeta nesta alteridade” (Luiz Costa)

VIII- Aspectos Educacionais

Considerando que não existe neutralidade política na prática pedagógica, cabe ao educador, além de cuidar, formar e informar, também re-humanizar.
A re-humanização ocorre quando o educador amplia a visão de mundo no aluno através da alteridade, assim surgirá um sujeito ético: Cidadão capaz de escolher governantes comprometidos com o saneamento básico, preservação ambiental, habitação, trabalho com salários justos, educação de qualidade, paz e justiça social.
Considere:
“O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele." (Kant)
"Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Sea educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda." (Paulo Freire )
IX – Direito À Infância e Educação

A mãe é o cartão de visita da humanidade. O ser humano nasce como todo mamífero, mas a subjetividade está em devir e a idéia do que é ser humano surge na relação mamãe-bebê. Ela é ampliada e fixada tanto na educação não-formal como na educação formal.
É na aquisição da linguagem que o educando se apropriará da herança cultural, uma refinada e complexa percepção de mundo. Essa apropriação lhe dará subsídios para argumentar com criticidade e revisionismo todo o sistema de códigos culturais que delimitam sua existência:
Nasce o cidadão humanizado que inventa leis, sistemas culturais, ciência e tecnologia.
O atentado máximo contra o direito à cidadania é permitir através da perpetuação de miniditaduras que vigore a exclusão social, o ensino de péssima qualidade com violência simbólica, trabalho infantil e corrupção judicial.
Considere:
"Se o mistério da pobreza não for causado pelas leis da natureza, mas pelas nossas instituições, grande é o nosso delito." (Charles Darwin)
"Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem."(Carlos Drummond de Andrade )


X – Além de Uma Conclusão: Um desafio.

Impedir, através da má vontade política, que o ser humano atinja o desejo pela arte e permaneça no nível da subsistência como os outros animais estão, é negar toda a conquista milenar da evolução psicobiológica e social que permitiu ao Homem a capacidade de admirar o belo e reconhecer o outro como um não-eu: Triunfos da individualidade e subjetividade.
Considere: "Podemos escolher recuar em direção à segurança ou avançar em direção ao crescimento. A opção pelo crescimento tem que ser feita repetidas vezes. E o medo tem que ser superado a cada momento." ( Abraham Maslow)
XI- Referência e Sugestão Bibliográfica
MUSSOLINI, Gioconda. Evolução, Raça e Cultura. São Paulo. Nacional: 1978.

XII- Para Ampliar e Contextualizar o Enfoque Antropológico
Filme: “A Guerra do Fogo”. Direção: Jean-Jacques Annaud. 1981. França.